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Surfe em ondas grandes: a perspectiva de um médico

Autores:
  • Terrance Farrell, D.O.
Estudo de alta relevância
Artigo na íntegra

Local: Emergency Medicine, Medical Director WSL Big Wave Tour, United States 

Fonte: Sports Orthop. Traumatol. xx, xx–xx (2018) 

Objetivo: introdução ao esporte e a competição do surfe em ondas grandes. Além disso, relatar a infra- estrutura médica de suporte aos atletas.

Metodologia: artigo de revisão feito pelo autor, diretor médico do circuito de ondas gigantes da WSL.

Resumo: Este é um esporte alto risco, ampliado à medida que a competição pela maior onda leva os atletas aos limites da capacidade humana. Dados preliminares sugerem que há menos de 2% de risco de lesão, durante um período de três anos de acompanhamento em competições oficiais feitas pelo autor. O suporte médico e uma equipe treinada de segurança assistida por jet ski provavelmente são a razão dessa baixa incidência de lesões.

Organização do evento

A decisão de executar a competição é feita pelo comissário da WSL, após a previsão de ondas superar os 30 pés de onda realizada pelos dados globais da Surfline. O evento começa com uma ” luz amarela ” cinco dias antes da data do evento proposto e, em seguida, uma ” luz verde ” 72 horas após o início do evento. A chamada resulta na mobilização de 24 surfistas e 150 membros da equipe de produção e equipe de segurança para viajar qualquer local do mundo. Quatro eventos são agendados a cada ano; no entanto, em alguns anos, os eventos são cancelados devido à falta de condições favoráveis ​​(<30 pés). As acomodações são avaliadas pela equipe da WSL e os voos reservados por um agente de viagens na Austrália. 

Os surfistas

São escolhidos 24 surfistas para cada evento, incluindo os 10 melhores competidores da temporada anterior, dois convidados dos qualificadores de vídeo do ano anterior, seis curingas locais e seis curingas de tour de ondas grandes. Esses atletas altamente treinados permanecem ativos o ano todo, perseguindo as maiores ondas do mundo e treinando especificamente para os riscos associados a esse esporte radical. O controle da respiração, o resgate na água e a ressuscitação agora fazem parte da preparação de cada surfista. O colete inflável tornou-se uma ferramenta de segurança adicional para a maioria; no entanto, o capacete raramente é visto na competição. Grande parte do orçamento de treinamento e viagens para esses surfistas depende de seus ganhos e suas economias pessoais. 

Time de salvamento aquático

Time formado por experientes pilotos de jet-ski e com competência em primeiros socorros. Os eventos, normalmente, contam com cerca de 10 a 12 membros nessa equipe. 

Os integrantes desse time são organizados em zonas. Uma base permanece em terra e coordena os resgates através dos rádios. Times de 2 pessoas cobrem cada uma das zonas estabelecidas (1 titular e 1 “back-up”), dessa forma, evitam que muitos jet-skis permaneçam numa mesma área e potencialmente causem algum acidente. Existe também um jet ski com um paramédico que está envolvido em todo resgate que necessite cuidados médicos. Esse é responsável para casos que necessitem de PCR, controle de hemorragias ou estabilização cervical para transferência para o barco médico ou para base na praia, e também está em constante comunicação com os todos os times de jet ski.

O time medico

A equipe médica é liderada por um médico de emergência certificado em conjunto com um grupo de paramédicos altamente treinados. Médicos locais, geralmente são incluídos na equipe para fornecer conhecimento local do sistema médico no caso de uma lesão que necessite de transferência para o hospital. Esse médico local também ajuda com qualquer barreira de idioma.

O objetivo da equipe médica é fornecer atendimento médico de emergência e suporte avançado de vida ao surfista gravemente ferido e agilizar o processo de transferência para um nível mais alto de atendimento quando indicado. Cada evento tem uma ambulância no local, bem como um plano resgate e evacuação da aérea.

O kit médico usado no evento foi projetado para incluir equipamentos para intubação e manejo das vias aéreas, cricotirotomia, controle de hemorragia, medicações, fraturas de ossos longos e pélvicas, desfibriladores, imobilização da coluna vertebral, controle de pneumotórax e inclui um ultrassom como exame auxiliar. O foco principal da equipe é fornecer o mais rápido possível, um alto nível de suporte médico agudo após uma lesão. A equipe de segurança da água treina anualmente para desenvolver as habilidades necessárias para atingir esse objetivo. Há uma forte ênfase colocada na preparação para os piores cenários, geralmente não controlado e imprevisível. Para facilitar o treinamento e as discussões da equipe, os vídeos de eventos anteriores do local são estudados exaustivamente.

As Lesões

As lesões no joelho observadas no surfe de ondas grandes envolvem mais comumente o joelho de apoio, que tem o leash e a prancha, acoplados. O mecanismo mais comum é o de tração exercida pelo arraste da prancha. Esse padrão, difere do WCT, onde as lesões no joelho e no tornozelo são mais comumente devidas às forças rotacionais e ao estresse em valgo associados a curvas e manobras aéreas.O grande volume de água se locomovendo de forma rápida também aumenta muito a chance de barotraumas de pulmão e ouvido após uma “vaca”. Quanto maior as ondas, maior a energia envolvida no trauma, dessa forma, qualquer queda pode provocar uma lesão importante, principalmente contra recifes e o fundo.

A incidência de concussão também pode estar sub-relatada. O evento Nazare 2016 foi notável por três lesões na cabeça com três mecanismos diferentes de lesão. Um surfista foi atingido por uma prancha, o segundo por um jet ski e o terceiro pela própria onda. A queda de uma onda de 30 a 40 pés em uma superfície não compressível (água), seguida pela pressão de submersão a 15 a 20 pés pela força da onda e pelo período de hipóxiaassociado a uma grande onda da série pode resultar em uma resposta concussiva mais ampliada. Esta é claramente uma área para pesquisas futuras e fará parte do protocolo da equipe médica antes e depois do evento para 2018.

Existe um risco significativo de afogamento, no entanto, o uso de coletes de inflação auto-ativados acrescenta um nível de segurança. A habilidade e competência dos operadores de jet ski na equipe de segurança aquática reduzem os riscos, retirando rapidamente o surfista da perigosa zona de impacto.

Conclusão: A incidência de lesões permanece baixa nos 9 eventos que participados. Dados preliminares sugerem que há menos de 2% de taxa de lesões para esse período. O tamanho médio das ondas durante esses eventos é de 30 a 50 pés e os eventos são realizados em cinco locais diferentes, com condições climáticas e de água variáveis. A incidência de lesões fatais tem sido extremamente baixa, muito devido ao treinamento e resiliência dos surfistas, bem como da qualidade da equipe de segurança hídrica em seu papel de minimizar lesões e evitar afogamentos.

Opinião SID: 🤙🤙🤙🤙. Apesar de poucos dados numéricos, essa revisão é de extrema importância pela quantidade de informação sobre essa modalidade crescente do mundo do surfe. Não temos informações se o formato das competições permanece o mesmo até os dias atuais. 

DICA SID: Conheça bem o local onde vai surfar, previna-se. Avise sempre as pessoas que estão na praia do local onde vai surfar. Realize um treinamento de resgate e ressuscitação básica. O surfe de onda grande requer não só habilidade pessoal no esporte mas também uma equipe muito bem treinada de suporte.